É comum que, na hora de comprar um brinquedo para uma criança, a gente procure respostas antes mesmo de olhar para ela.
Será que esse brinquedo ajuda no raciocínio?
Será que estimula a criatividade?
Será que desenvolve a coordenação motora?
Será que é adequado para a idade?
Será que vale o preço?
Não há nada de errado em fazer essas perguntas. Afinal, queremos oferecer boas experiências para nossos filhos. O problema começa quando acreditamos que existe um brinquedo perfeito, capaz de “estimular” sozinho tudo aquilo que consideramos importante para o desenvolvimento infantil. Não existe.
Um brinquedo pode ser maravilhoso e permanecer esquecido no canto da sala. Outro, simples e barato, pode se transformar durante semanas em uma casa, um restaurante, uma garagem, uma floresta ou qualquer outra coisa que a imaginação da criança inventar. A diferença nem sempre está no brinquedo. Está no brincar. E brincar não é simplesmente utilizar um objeto. É experimentar, imaginar, criar, repetir, transformar, inventar regras, fazer de conta, testar possibilidades, negociar com outras pessoas e atribuir novos sentidos às coisas. Por isso, talvez uma pergunta mais interessante do que “qual brinquedo vai estimular meu filho?” seja: “Que tipo de experiência esse brinquedo pode possibilitar?”
Um bom brinquedo não precisa ensinar uma lição
Existe uma certa ansiedade dos adultos em transformar todas as atividades das crianças em oportunidades de aprendizagem. Se a criança está desenhando, queremos saber o que ela está desenvolvendo. Se está montando blocos, pensamos em raciocínio espacial. Se está brincando de casinha, procuramos algum benefício para a linguagem. Se está jogando um jogo, queremos saber quais habilidades cognitivas estão sendo estimuladas. É claro que o brincar envolve aprendizagem. A criança aprende o tempo todo enquanto brinca. Mas isso não significa que o brincar precise ter uma finalidade pedagógica definida pelo adulto.
Uma criança pode simplesmente gostar de empilhar peças. Pode passar vinte minutos colocando carrinhos em fila. Pode construir uma torre e derrubá-la repetidamente. Pode pegar uma caixa de papelão e transformá-la em um foguete. Pode brincar de ser um personagem que nós nem conseguimos entender direito. E está tudo bem. O valor dessas experiências não está apenas na habilidade que conseguimos identificar de fora. Brincar também é uma maneira de a criança conhecer o mundo e experimentar possibilidades dentro dele.
Por isso, quando escolhemos um brinquedo, vale observar menos a quantidade de funções anunciadas na embalagem e mais aquilo que a criança poderá fazer com ele. Ela poderá inventar diferentes maneiras de utilizá-lo? Poderá combinar suas peças com outros brinquedos? Poderá construir e desconstruir? Poderá criar histórias? Poderá brincar sozinha ou com outras pessoas? Poderá fazer escolhas?
Quanto mais possibilidades um brinquedo oferece, mais espaço existe para a criança se apropriar dele à sua maneira.
O brinquedo não precisa fazer tudo sozinho
Talvez você já tenha percebido isso em casa. A criança ganha um brinquedo cheio de luzes, sons e funções. Brinca por alguns minutos e logo perde o interesse. Enquanto isso, uma caixa de papelão que estava destinada ao lixo vira uma casa. Ou um conjunto de blocos simples permanece no chão durante semanas. Isso acontece porque brinquedos muito fechados podem oferecer uma experiência bastante determinada: apertar um botão, ouvir um som, movimentar uma peça, seguir uma sequência. Já materiais mais abertos deixam uma pergunta para a criança:
“O que eu posso fazer com isso?”
Blocos de montar, peças de encaixe, massinha, tecidos, caixas, bonecos, animais, elementos para construir e materiais de desenho são alguns exemplos de objetos que podem assumir diferentes funções ao longo da brincadeira. Uma peça pode ser uma parede. Depois, uma ponte. Depois, um telefone. Depois, parte de uma cidade imaginária. O objeto permanece praticamente o mesmo. O que muda é o significado que a criança atribui a ele. E é justamente aí que a imaginação ganha espaço.
E onde entra o adulto?
Aqui está uma das partes mais importantes — e também uma das que mais podem aliviar a nossa culpa como pais. Brincar junto não significa necessariamente passar uma hora inteira no chão. A vida real não funciona assim.
Existem dias de trabalho, tarefas domésticas, compromissos, cansaço, mensagens para responder, comida para fazer, banho, sono e tantas outras coisas. Às vezes, temos disposição para brincar. Às vezes, não temos. E reconhecer isso também faz parte de uma relação real com nossos filhos. A participação do adulto pode acontecer de muitas maneiras. Pode ser sentar por alguns minutos e construir alguma coisa. Pode ser observar a brincadeira e demonstrar interesse. Pode ser perguntar:
“Me conta o que você está fazendo.”
“Quem mora nessa casa?”
“E o que acontece agora?”
Pode ser aceitar o convite: “Pai, vem ver!”. Aí nos cabe realmente olhar. Pode ser deixar que a criança explique as regras de um jogo que ela mesma inventou. Pode ser entrar na brincadeira sem tentar comandá-la. E existe uma diferença importante entre participar e dirigir. Quando entramos na brincadeira dizendo o tempo todo o que a criança deve fazer, corrigindo suas construções ou mostrando “o jeito certo”, podemos acabar ocupando um espaço que deveria ser dela. Às vezes, o melhor que podemos fazer é acompanhar. Observar. Perguntar. Esperar. Deixar que a criança nos mostre o caminho.
“Mas eu não sei brincar…”
Essa é uma frase mais comum do que parece. Alguns adultos sentem que precisam ser criativos, inventar histórias, montar atividades ou conhecer muitas brincadeiras para conseguir participar. Não precisam. Comece pelo que a criança já está fazendo. Se ela está construindo uma torre, observe. Se está fazendo um desenho, pergunte sobre ele. Se está brincando com bonecos, entre como mais um personagem. Se está montando uma pista de carrinhos, pergunte onde é a chegada. Você não precisa chegar com uma brincadeira pronta. A criança já está brincando. Você só precisa, algumas vezes, aceitar o convite para entrar. E talvez essa seja uma das formas mais bonitas de estar presente: deixar que, por alguns minutos, a criança seja a especialista naquele mundo que ela mesma criou.
Um ambiente que convida a brincar
Existe ainda outro elemento que muitas vezes esquecemos quando pensamos nos brinquedos: o espaço onde eles ficam. Quando todos os brinquedos estão misturados em uma grande caixa, pode ser mais difícil encontrar aquilo que a criança procura. Quando ficam guardados muito alto, fora do alcance, a criança depende sempre de um adulto.
Quando o ambiente está organizado de uma maneira que permite visualizar e acessar os brinquedos, algumas possibilidades mudam. A criança pode escolher. Pode experimentar. Pode combinar diferentes materiais. Pode decidir com o que quer brincar. E, aos poucos, também pode aprender a guardar. Isso não significa manter uma sala de brinquedos perfeitamente organizada o tempo inteiro. Aliás, uma sala onde as crianças realmente brincam provavelmente ficará desorganizada muitas vezes.
Bagunça e falta de organização não são exatamente a mesma coisa. O importante é existir uma lógica que faça sentido para a criança. Um lugar para os blocos. Um espaço para os jogos. Cestos para determinados brinquedos. Prateleiras ou estantes onde aquilo que pode ser usado com frequência fique visível e acessível.
A organização, nesse sentido, não serve apenas para deixar a casa bonita. Ela também pode ajudar a criança a construir, gradualmente, uma relação mais autônoma com seus próprios brinquedos.
Menos brinquedos, mais possibilidades?
Não existe uma quantidade ideal de brinquedos que sirva para todas as famílias. Mas vale observar uma coisa: quando uma criança tem acesso a muitos brinquedos ao mesmo tempo, nem sempre isso significa que ela terá mais possibilidades de brincar.
Às vezes, acontece justamente o contrário. São tantas opções que fica difícil escolher. Por isso, uma alternativa interessante é fazer uma organização que permita alternar os brinquedos disponíveis. Alguns podem ficar acessíveis enquanto outros são guardados e reapresentados depois.
Não é preciso comprar mais. É possível reorganizar o que já existe. E, quando um brinquedo volta a aparecer depois de algum tempo, ele pode ganhar uma nova vida. A criança também muda. Aquilo que não despertava interesse há alguns meses pode fazer sentido agora.
Então, como escolher?
Na próxima vez que você estiver diante de uma prateleira cheia de brinquedos, talvez possa experimentar algumas perguntas diferentes. Em vez de olhar apenas para a embalagem, pense:
Este brinquedo permite que meu filho faça escolhas?
Ele pode ser usado de mais de uma maneira?
Permite criar histórias, construir ou transformar alguma coisa?
Pode ser combinado com outros brinquedos que já temos em casa?
É algo que interessa à criança ou estou escolhendo apenas porque parece “educativo”?
Ela conseguirá acessar e utilizar esse brinquedo com alguma autonomia?
E, talvez a pergunta mais importante: Consigo imaginar momentos agradáveis acontecendo a partir desse brinquedo?
Porque não precisamos transformar a infância em uma sequência de atividades planejadas para produzir resultados. Crianças precisam de oportunidades para explorar. Precisam de tempo. Precisam de espaço. Precisam de materiais que possam transformar. E precisam, também, de adultos disponíveis para estar por perto, mesmo que essa disponibilidade aconteça em pequenos intervalos do cotidiano.
O melhor brinquedo pode ser o começo de uma experiência. No fim das contas, escolher um brinquedo não deveria ser uma busca pelo objeto perfeito. É uma escolha sobre possibilidades. Um brinquedo pode ser o ponto de partida para uma história.
Uma construção pode virar uma conversa. Um jogo pode virar uma negociação. Uma caixa pode virar uma casa. Uma estante pode ajudar a criança a escolher sozinha. E alguns minutos ao lado dela podem se transformar em uma memória que nenhum brinquedo, por mais sofisticado que seja, conseguiria produzir sozinho.
Por isso, talvez a gente possa diminuir um pouco a pressão de encontrar o brinquedo que “mais estimula” nossos filhos. E começar a procurar aquilo que convida a brincar.
No Juntos no Brincar, nossa proposta é justamente ajudar as famílias a encontrar brinquedos, materiais e recursos que façam sentido para diferentes momentos da infância — incluindo opções para brincar, criar e também organizar o ambiente de forma mais acessível para as crianças.
Você pode conhecer nossa curadoria de brinquedos e itens para organização do brincar aqui.
No final, o brinquedo é apenas uma parte da história. O que realmente importa é o que a criança consegue fazer com ele, os significados que constrói e as relações que acontecem enquanto brinca. Porque brincar não precisa ser perfeito. Precisa ser possível.
E, muitas vezes, pode começar com muito pouco. Até com dois minutos no sofá, depois de um dia cansativo, quando você olha para o seu filho e pergunta: “Me mostra o que você está fazendo, filho/a?”
